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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu tive um balão...

Talvez, a última vez que me senti verdadeiramente feliz foi quando eu ganhei um balão. Aos 20 anos, saía de um dia desastroso no trabalho quando me deparei com um moço me esperando e, surpreendentemente, segurando um balão rosa. Não consegui olhar para nenhum outro lugar além daquela bola flutuante. Senti, assim, sem querer, os meus olhos brilhando diante de uma cena tão improvável. Depois, dei risada ao ver o marmanjo pulando para conseguir resgatar mais dois balões que estavam perdidos no teto da entrada do prédio. Fui caminhando até o ponto de ônibus ostentando três bolas rosas. Andava com o peito estufado e não conseguia tirar os olhos deles. Lembrei-me da infância, das enormes bolas que eu comprava quando ia ao Parque do Carmo, do meu medo de bexigas, dos meus dias mais pueris. "Eu os peguei para que você pudesse soltá-los". Comprei um alfajor e, enquanto atravessava a avenida Cidade Jardim, decidi dar a liberdade ao trio que alegrou o meu domingo desastroso. No canteiro central, eu os vi flutuar até bem alto, até eles fugirem do alcance da minha visão debilititada pela miopia. Enquanto terminava o meu doce, o moço apontava para o céu dizendo que ainda conseguia vê-los. Já eu não me importava mais aonde eles estavam, continuei deliciando-me com a lembrança de como tinha sido feliz enquanto tive aqueles três balões rosa.


terça-feira, 11 de maio de 2010

família, ah!

I
Rogério, solteiro, 38 anos e já quase não tinha cabelos no topo da cabeça. Calvice, herança familiar, recessivo na parte do pai, dominante nos genes da mãe. Gostava de jogar bola, mas a barriga, que lhe impedia de tocar os próprios pés, o impedia de ter um bom desempenho em campo. Tendência a engordar, puxou do lado paterno: senhor Afonso, 65 anos e mais de 100 quilos. “Ê, Rogério, por que não rola junto com a pelota?”. O pessoal do escritório ria.
Coitadas são as nossas famílias. Mesmo tendo as melhores das intenções, a culpa de todas as nossas frustrações sempre recai sobre os nossos parentes. Culpa de nossa família, que nos acolhe ou nos expulsa, que nos agrada ou nos repudia.
Era assim. Rogério sempre se sentia claustrofóbico entre as pessoas que passeavam naquela sala apertada. Fumaça de cigarro, cachimbo. Mais tarde culparia o vício paterno e as reuniões familiares pelo câncer na faringe que viria a ter e pelo qual morreria. Em sua mente, ele ironizava a risada retumbante de seu velho pai e a maneira com que Dona Madalena, bonita, olhos azuis vívidos, tentava agradar a todos. Quando chegara, foi recepcionado com aquele carinho típico de mãe. “Mas, meu filho, está cada vez mais gordinho, não?”. Risadas. Fora o primeiro golpe na auto-estima, a primeira casca que soltara da proteção que sempre construía e onde aprisionava um monstro furioso.
Sentado, perto da estante de livros, estava o tio que todos consideravam inválido. Já bastante idoso, mas sem perder aquele brilho inteligente que todo bom leitor sustenta em seu olhar. Alberto usava óculos finos, pousados na ponta de seu odunco nariz. Quase não falava. Nada demais para um velho. Seu silêncio era apenas interrompido às vezes para uma risada singela, sarcástica. Os olhos dos dois homens, em lados opostos da sala, se cruzaram e, junto com o cheiro de pele já idosa, veio a frase “eu também os odeio...”, que ressoou durante todo aquele feriado natalino, como o consolo de que nem todo ódio é único.

II
Você ligou para a residência do Rogério. Favor deixar o recado após o sinal... BIP

Olha, filho. Eu sei que você não gosta de nossas reuniões familiares. Percebo em seu olhar, o modo como foge de meu carinho, como não gosta que eu fale de sua barriguinha na frente de seus tios. Falando nisso, que barriguinha, hein? Lembro de quando a mordia, junto com as dobrinhas do bebê gordinho que você sempre foi. Você vai ser, para sempre, o meu bebê, tá? Tô ligando para dizer que aquele seu tio, o Alberto, morreu. Pois é. Estava inválido já, o coitado, não? Tinha cheiro de gente velha, as vezes eu pensava ver poeira em suas rugas. Enfim, morreu feliz, dormindo na casa de repouso. Percebi que conversaram no último natal. Percebi que vocês se aproximaram naquele feriado, por isso achei que eu mesma precisava te dar esta notícia. Falando nisso, como vai aquele probleminha na garganta? Você precisa ir ao médico, menino! Eu sei que já é grandinho, que já tem 38 anos e bla bla bla, mas sou mãe e o meu coração fica apertado. Estou tentando convencer o seu pai a parar de fumar cachimbo. Deve ser por isso que você tem essa voz tão rouca, o Afonso fumou tanto durante a sua infância. E a análise, como vai? Os probleminhas com a auto-estima, como vão? Espero que bem, lembro de quando você explodiu naquele domingo. Era outra pessoa, era um monstro, não o reconhecia. Ai, filho, desculpa falar assim, dessas coisas agora. É que estou preocupada. Só espero que a morte do Alberto não piore a sua situação. E o pessoal do escritório? Ainda rindo da sua pancinha? Espero que o futebol de quinta-feira esteja fazendo efeito sobre o seu peso. Outra coisa, comprei um remédio para calvice ótimo, um que eu lembro que o meu pai usava. Ele faz crescer cabelo! É ótimo, meu filho. Estou mandando amanhã mesmo, tá bom? Bom, vou indo. O velório vai ser hoje, durante a noite, e o enterro amanhã. Apareça se puder. Te amo, filhinho querido, piquituxo da mamãe.

terça-feira, 2 de março de 2010

breve #11

mas que bosta, mas que bosta, mas que GRANDE BOSTA.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Eu sou Imprensa - A MÚSICA

Vou entrar pelos bastidores
Como um agente secreto
Eu sou imprensa (2x)

Então vou fazer uma resenha
Sobre Pablo Neruda
Eu sou imprensa (2x)

Depois vou ir jantar
No restaurante oriental
Eu sou imprensa (2x)
por Chini

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Enquanto isso na redação...

Atchim!

Atchim!

Atchim!

- Tenho alergia a vocês. Sempre espirro mais aqui...

tec tec tec, fez a redação.

- Vou começar a usar uma bolha de plástico de proteção, que nem o Jimmy Bolha...

O chefe da menina olha para ela, meio curioso.

- Aí, como terei necessidades especiais, o jornal terá que se adaptar a elas e aparecerei na novela das oito como um exemplo de superação.

O chefe abaixa a cabeça, tentando lembrar do porquê de tê-la contratado. Agora parece tão irreal...

- E como você será revoltadinha vai ficar jogando papel, lápis, caneta na gente, não é mesmo? - ele disse

- Exatamente. E vocês não poderão fazer nada, pois serei PORTADORA DE NECESSIDADES ESPECIAIS. Além de que a bolha de plástico me protegerá... - ela fala sério, enquanto termina de fazer seus afazeres.

- De onde ela tira esse tipo de coisa? - o chefe pergunta à outra estagiária.

ATCHIM!