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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

é bomba, é relógio.

Querido Harry,

Tem gente que conta carneirinhos para cair no sono, eu conto batidas de coração. Falando assim, parece piegas, mas foi intrigante quando percebi que, quando você me abraçava por trás antes de dormir, eu podia sentir as batidas de seu coração em minhas costas encostadas em seu peito. Costumo comparar com a sensação de segurar um passarinho: é delicado, palpitante, e vivo, muito vivo. O engraçado é que eu descobri isso me certificando que você não havia morrido durante o sono (você sabe que eu sou meio mórbida). Foi, no mínimo, divertido sentir vida em um momento que eu esperava a morte. E todas as vezes que sinto seu coração acariciando minhas costas eu fico feliz por você existir, mas fico triste por isto me lembrar que você é humano, feito de carne, sangue e ossos. Dependente de um órgão que o da galinha a gente come espetado em um espetinho. Um órgão que é uma bomba e é um relógio: que pulsa vida por seu corpo e que tiquetaqueia, em seus compassos, o tempo que você tem e que lhe resta. É duro se dar conta de nossa fragilidade.

Só queria compartilhar estes pensamentos que, todos os dias, me esmagam. E explicar porque eu te encho tanto para dar uma corridinha na esteira e/ou visitar o cardiologista. É seu coração que me acalma quando entro neste redemoinho de pensamentos e é no ritmo dele que eu tento entrar quando me deixo adormecer.

Boa noite.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O som do gozo alheio.

Vizinha 1: Com licença, será que a senhora e a sua família poderiam parar de fazer tanto barulho todo dia depois da meia-noite?

Vizinha 2: Só se você parar de gemer alto às 10h.

Vizinha 1: A partir das 8h eu posso fazer o barulho que eu quiser. Após as 22h, lei do silêncio, minha filha.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

entre copos

No happy hour de uma quinta-feira.

Risadas

x:...que nem em Friends, quando um faz xixi na perna do outro para curar queimadura de água-viva.

y: Pode crer! (risos)

x: O melhor é o povo que faz xixi em si mesmo para tentar se esquentar, quando está muito frio (risos)

y: Ah, mas isso é mó mentira, depois do quentinho tudo fica gelado!

x: Né, meu? Mó porcaria isso.

Silêncio.

x: Quem vê acha que a gente já fez xixi na própria perna para tentar se esquentar, hehehe.

y: Quem vê pensa, né? Que isso! hehehe. (Olha para o lado)

Constrangimento e fim.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vagão. 23h.

O álcool lhe dera aquela zonzera na cabeça e lhe secara a boca. O trem balançava ao som da música que lhe enchia o cérebro zoneado. Os olhos, embaçados, estáticos, estavam muito além do que aquele vagão sujo. Era tudo tão torto, cheio de curvas brilhantes que lhe fazia perder a concentração. Se segurou no banco quando viu que, sem querer, tombara um pouco para o lado do moço que estava sentado ao seu lado. O barulho irritava mas aquela dormência nas articulações o fazia esquecer do som ultrajante. O álcool aspirava todos os pensamentos subjetivos e deixava somente os mais claros. Potencializava os sentimentos, lhe enchia os olhos de alegria e de tristeza, tudo ao mesmo tempo. Não se importava se as pessoas estavam olhando-o desconfiado. Era quinta-feira, os olhos injetados entregava a farra que tivera há pouco com alguns amigos. Amanhã, mais um dia cheio de obrigações. Mas, por enquanto, a zonzera o fazia esquecer que, mais uma vez, outra vez, estaria pegando o metrô no sentido contrário, ouvindo aquela mesma playlist. Gostava daquela sensação, mas ela a incomodava. Gostava de sentir as coisas como elas eram e ele sabia, apesar daquele teimosia típica de bêbado, que estava enxergando o mundo, naquele momento, diferente do que enxergava normalmente. Estava tudo mais simples, mais claro, mais vivo dentro de si. Estava feliz, apesar de algumas adversidades. Mas estava solitário, apesar do vagão cheio às 23h. Era a zonzera, era a vontade de chegar em casa e tirar a roupa do trabalho. Era a felicidade de ter passado bons momentos, era o frio dos lençóis amassados e do cinzeiro lotado. E ela não estaria lá para rir ou dar bronca por causa do seu bafo alcoolizado. Ela estava em outro lugar, além de seu toque. Além de sua bebedeira.

terça-feira, 29 de junho de 2010

cigarros, música e o contemplação

às vezes ele fazia questão de segurar a mão da melancolia. estimulado pela música que tocava no rádio, tentava pensar em outros coisas além dos problemas profissionais e amorosos. ao apagar um cigarro, seu corpo já pedia outro. era aquela ânsia de mergulhar em si, de sentir-se aprofundar. a fumaça passava por seus pulmões e o fazia tocar o imundo. ao deixar-se levar pelos males, conseguia se enxergar melhor. era assim que funcionava a sua meditação. tragava, expirava, tragava, apagava. o cheiro de tabaco despertava sensações familiares. era o cheiro que exalava do cabelo daquela moça. olhos lânguidos, pele branca, cabelos levemente loiros. não era bonita, mas algo em seu jeito de olhar, em seu sorriso. levantara-se. o corpo magro dentro de uma calça jeans surrada, descalços. as mãos tomaram a posição inicial e rodopiou. o passo não dera certo, mas, também, há quanto tempo não dançava? aumentou o volume da música. Interpol no rádio, melancolia no coração. acendeu mais um cigarro e deixou-se levar por sua contemplação.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Devaneio de uma noite de verão

Ele chamou a atenção dela por causa do livro que lia: Parque dos Dinossauros. A partir daí, a menina, vestida em um vestido florido, não conseguiu deixar de observá-lo. Ele a encantou pela maneira que deixava os ombros caírem enquanto era sacolejado pelo movimento do trem. Compenetrado, o rapaz, dos cabelos negros e olhos tímidos, não percebeu que tinha a atenção completa da garota de seus sonhos. E não notou como ela sorriu, achando graça da forma como ele tentou pegar o marca páginas que deixou cair. A garota pensou em elogiar sua camiseta, aquela da vaca sendo abduzida, mas a timidez lhe amarrou no banco. Em lados opostos do vagão, não se tocavam. Quando levantou o rosto, sentiu como se alguém o tivesse cutucado. Sorriu para ela quando percebeu que estavam sozinhos naquele compartimento. Eram cúmplices sem ao menos se conhecerem. A imaginação voou longe e a garota do vestido florido levantou, o pegou pela mão e começaram a dançar ao meio dos balões, com a batida de The Smiths ao fundo. Some girls are bigger than others... Aprenderia a tocar piano só para mexer as mãos daquele jeito charmoso. As mãos dele, a garota viu, eram de pianista, como as suas. Se apaixonou instantaneamente por elas, queria tocá-las. Estação Patriarca. Moça, chegamos ao fim da linha... Os mesmos olhos tímidos, Parque dos Dinossauros embaixo do braço. Foi apenas um sonho. Sabrina, sua vida não é um filme protagonizado pela Zoel Deschanel.